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Gerações Leminski (Série Lírica)

Aurea Alice Leminski, Silvana Oliveira e Solange Leminski (Orgs.)

 

Edição: 1a

Páginas: 104

Formato: 20,5 x 28 cm

Peso: 300g

Miolo: papel cuchê fosco 115g 

Capa: papel triplex 300g

Acabamento: colado e vinco

Ano de publicação: 2010 

ISBN: 978-85-62450-08-2

 

ser leminskiano: Gerações Leminski

 

Quando se pensa em Paulo Leminski nos meios acadêmicos ou nos círculos mais intelectualizados é comum que ele seja percebido como uma linha de fuga no cenário da literatura paranaense. Afinal, como associar a produção leminskiana à tradição bem letrada que vem desde os simbolistas curitibanos até a Helena Kolody de todos nós? O deboche artístico, o diálogo constante com a imagem, a trajetória do homem à margem das convenções, fazem a produção de Leminski girar como um redemoinho provocativo para a ideia corrente de poesia como uma linguagem dos eleitos. Transformado em ícone da arte curitibana, Leminski extrapola os limites da poesia e traz para o seu universo um dizer próprio sobre o mundo. Nesse dizer, a poesia deixa de ser expressão que separa o homem dos seus iguais e assume um caráter dialógico e democrático, como se Leminski nos dissesse em cada poema que todos nós podemos, se quisermos, tornar-nos poetas!

 

o paulo leminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau e pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique

(LEMINSKI, Paulo. Caprichos e Relaxos. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 27.)

 

E fez chover mesmo, fez chover essa poesia de todo dia, poesia para qualquer hora, para ser fruída antes de tomar banho e sem roupa adequada.

Esse Gerações Leminski que agora aparece é o resultado de um piquenique com chuva, sem a “circunstância” das cestas e da toalha xadrez, um piquenique que desarruma certos lugares estratificados da poesia convencional. Fazem parte desta coletânea poemas compostos pelos irmãos Maria e Paulo Leminsky, este último pai do famoso poeta curitibano Paulo Leminski ─ vetor da poesia como marca dessa família.

Paulo Leminski protagoniza a seleção com um poema central, cuja temática funciona como ativador da geração inteira; vemos ainda os poemas e imagens dos quadros de Solange Leminski, neta de Maria Leminsky e prima do poeta Paulo Leminski; também Estrela Leminski, filha de Paulo Leminski, imprime poemas seus nestas páginas.

Os poemas de Maria Leminsky abrem uma rota poética que pode ser lida de forma circular; no piquenique leminskiano, Maria revela sua coragem verbal em contexto no qual as mulheres devem se calar por trás de seus vestidos floridos. A poesia confessional, marcada por um apaixonado discurso de amor contrariado, revela, antes de tudo, uma voz que antecipa a democrática lição leminskiana: a poesia é para todos, e serve a muitos usos, inclusive a esse de desafogar o coração.

Paulo Leminsky, o pai, também dedicado a confissões amorosas cavalheirescas, torna tangível esse mundo em que a folha de papel tem o poder de eternizar certo estado de alma, capaz de tornar a dama a quem o poema se destina na mais gentil das criaturas.

No centro, atuando no esclarecimento do passado e potencializando o futuro, está Paulo Leminski, o poeta.

Paulo Leminski, o poeta, com suas polêmicas, uma vida que ora nega, ora afirma sua poesia, em família, talvez tenha tido poucas oportunidades como essa que o Gerações Leminski cria: a chance de irmanar-se com os seus, estando no centro, como meio corrediço que esclarece e justifica a relação entre textos que essa publicação agora propõe.

 

Haja hoje para tanto ontem!

(LEMINSKI, Paulo. Caprichos e Relaxos. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 27.)

 

Solange Leminski, artista plástica, atriz de teatro, hoje, também poeta, faz o dueto com Maria Leminsky, duas mulheres, gerações tão distantes que formam o diálogo dos dois tempos e com dizeres que ora se respondem, ora se contradizem. A mulher é outra e a palavra é também outra. Maria vive em uma época marcada pelo amor sofrido, pelos versos rimados, e hoje, brincando com as palavras, Solange reflete e refresca o coração ─ também capaz de chamas. Versos livres, rimados, multiplicados por um olhar contemporâneo para a experiência feminina. A poesia aqui dialoga com a expressão plástica, os quadros de Solange se entregam àqueles que os contemplam com a mesma generosidade de seus poemas, é como se sua obra fosse mesmo um convite para o outro também criar, compartilhando sentidos íntimos vislumbrados pela artista. Assim, como Paulo Leminski, seu primo, Solange Leminski traz em seus poemas o cotidiano internalizado numa linguagem subjetiva da qual o leitor é também uma parte ativa. Estrela Leminski, a filha de Paulo Leminski, traz para este piquenique poemas que traduzem um universo contemporâneo, pela voz de uma jovem de seu tempo, na lida eterna e contínua do ser em busca da palavra que o diga.

Uma proposta editorial que apresenta o mosaico criativo de Gerações Leminski, cujos contornos não se fixam como estabilidade concreta no sentido convencional de arte, lida com uma dimensão diversa de dicção poética. O projeto gráfico de um artista como Élio Chaves traduz essa intenção em um livro que é em si mesmo um objeto artístico; um livro que pede para ser manuseado, contemplado, sentido por mãos, olhos, mente e emoção e, além disso, um livro que quer resposta, que solicita gentilmente a intervenção do leitor, seja para dar significado às páginas amarelas nas quais Maria, a avó, e Paulo, o pai, escreviam, seja para equacionar a delicada relação dos poemas com as imagens belíssimas dos quadros de Solange. Assim, a poesia não pretende ser a linguagem de catedral, ou a linguagem angelical de certa tradição monológica em que a arte é a expressão de uma sensibilidade elevada acima dos reveses da vida comum. Aqui não são os anjos que falam, são antes os homens e as mulheres a potencializar sua expressão em coragem discursiva. Estamos, como se vê, diante de uma poesia que se quer como experiência, poesia de todo mundo e para todos os dias de cada um de nós.

 

Silvana Oliveira

Universidade Estadual de Ponta Grossa 

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