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História nas bancas de revistas. Um país impresso: entre representações sociais e culturas políticas

Reinaldo Lindolfo Lohn (Org.)

Dados técnicos da obra
 
Edição: 1a
 
Páginas: 354
 
Formato: 16 x 23 cm
 
Peso: 606g
 
Miolo: papel ofsete 90g/m2, costurado
 
Capa: cartão supremo 250g/m2, com laminação fosca
 
Ano de publicação: 2016
 
ISBN: 978-85-62450-45-7
 
Revisão: Hein Leonard Bowles
 
Capa, projeto gráfico e diagramação: Dyego Marçal
 
 
 
 
Prefácio
 
 
 
História e política, cultura e mídia
 
 
 
Luís Felipe Miguel*
 
                       
 
É impossível entender a dinâmica dos conflitos sociais e das disputas políticas nas sociedades contemporâneas sem levar em conta o papel dos meios de comunicação de massa. Eles são o canal pelo qual os líderes políticos atingem seu público; são também a janela pela qual este público vê o mundo que o cerca e adquire as informações com as quais irá pautar seu comportamento. Desde seu surgimento, a imprensa tornou-se tanto agente quanto objeto da luta política. Dos periódicos francamente partidários dos primórdios do jornalismo, na Europa do século XVIII, ao desenvolvimento dos veículos comerciais com pretensão de imparcialidade, a partir do século XIX, e daí à atual crise de financiamento das empresas de mídia, muita coisa mudou. Permanece, porém, o fato de que os grandes provedores de informação têm uma influência gigantesca na produção da chamada “opinião pública” e, por isso, são ativos valiosíssimos para quem almeja alcançar o poder.
 
No Brasil, mais do que qualquer outro episódio, foi a eleição de Fernando Collor para a presidência da República, em 1989, que dramatizou a importância política dos meios de comunicação de massa. Governador de um estado sem grande peso político, pilotando uma aliança de três partidos irrelevantes, Collor credenciou-se para a disputa presidencial ― e nela terminou vitorioso ― graças a uma ofensiva de mídia e ao apoio dos principais veículos, notadamente a Rede Globo de Televisão e a revista Veja (como se pode ver no capítulo de Fábio Estivallet Di Vaia). Desde então, os estudiosos da área lamentam a pouca atenção que a academia brasileira dá à relação entre a mídia e a política. Enquanto os políticos são obcecados com o controle da própria visibilidade midiática, a ciência política, a sociologia política e a história política só olham para as instituições representativas formais, para os partidos e, quando muito, para os sindicatos ou para as forças armadas.
 
Mas esse quadro está mudando. Nos últimos anos, muitos estudos de qualidade têm lançado luz sobre a relação entre os meios de comunicação de massa e a política no Brasil. Este História nas bancas de revistas é um bom exemplo. Seus doze capítulos apresentam ricas pesquisas empíricas, valorizadas também por sólida orientação teórico-metodológica, sobre a influência política da mídia ― ou, mais precisamente, de uma forma particular de mídia impressa, a “revista de informação” ― no Brasil das últimas décadas.

O jornalismo das revistas de informação é variado, mas possui características que o distinguem dos jornais diários. Em particular, ele permite um texto mais “colorido” e a divisão convencional entre “reportagem” e “opinião”, que os diários tentam manter como forma de assegurar credibilidade, é mais difusa. A pretensão de apresentar uma sinopse dos fatos que o jornalismo diário já cobriu leva a uma exposição maior dos critérios de seleção noticiosa e a um trabalho mais evidente de interpretação (e de condução da apreciação do leitor). Em outras palavras, as funções de agendamento e de enquadramento, próprias do jornalismo, são mais explícitas no caso das revistas.
 
A publicação mais analisada, nos capítulos que se seguem, é a revista Veja ― e por bons motivos. Principal revista semanal brasileira, com uma circulação que ainda hoje é oficialmente superior a um milhão de exemplares por edição (embora os números sejam contestáveis), a Veja radicalizou o rompimento com a fachada de imparcialidade que os manuais do bom jornalismo exigem. Ao longo das décadas, suas preferências políticas se tornaram cada vez mais indisfarçadas e ela assumiu a posição de guia da opinião de seus leitores, um público que pode ser definido como a “classe média conservadora”. Veja constitui, assim, um novo paradigma de jornalismo noticioso, em que a credibilidade de que desfruta não é baseada na promessa de relato objetivo dos fatos, mas na fidelidade aos valores e preconceitos compartilhados com seus leitores. Na crise política do segundo mandato da presidente Dilma Rouseff, a maior parte da mídia brasileira aderiu abertamente às manobras golpistas visando à derrubada do governo legitimamente eleito, mostrando como o modelo iniciado por Veja ganhou continuadores não apenas entre suas concorrentes diretas, mas também no jornalismo impresso diário e no telejornalismo.
 
Ao lado de Veja, os estudos tratam tanto de revistas que concorrem ou concorreram diretamente com ela, como IstoÉ ou Visão, quanto de outras, com projetos bastante diferentes. É o caso da Revista do Brazil, que foi editada na primeira metade do século XX como magazine cultural; de Manchete, revista de enorme circulação nos anos 1970, que privilegiava o material fotográfico e se apresentava como um misto de semanário e de variedades; de Realidade, de vida curta, mas de impacto duradouro, que foi um projeto jornalístico diferenciado, com reportagens polêmicas e em profundidade; ou da Reader’s Digest, mensário editado em vários países, com o propósito de oferecer uma síntese de materiais publicados em outros veículos e uma orientação declaradamente conservadora e anticomunista.
 
Com isso, os estudos abarcam uma variedade de modos das revistas de informação que permite iluminar diferentes facetas de sua interface com a história e a política. História e política que são entendidas, aliás, também de maneira distendida. A história aqui abordada não se furta a alcançar o tempo presente, como na instigante análise de Sônia Meneses, que compara as manifestações pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992, com os protestos ocorridos por todo o Brasil em junho de 2013. Trata-se, a rigor, de algo próprio do objeto. As revistas se propõem apresentar uma narrativa da história do tempo presente, de maneira ainda mais ostensiva do que o jornalismo diário, justamente pelo caráter de síntese interpretativa de que se reveste seu material. Ao mesmo tempo, são ― como toda a mídia ― agentes num campo de disputas, cujas estratégias precisam ser analisadas como tal. Por fim, transformam-se em fontes para o estudo posterior dos acontecimentos que narram (mas, sempre, fontes situadas e interessadas, aspecto que a pesquisa histórica não pode deixar de lado).
 
E a política que o leitor encontra aqui vai muito além da institucionalidade estrita. Embora muitos dos capítulos abarquem processos eleitorais, transições institucionais, mobilizações de rua, isto é, acontecimentos que pertencem ao universo da política tal como convencionalmente definida, outros vão discutir a construção de representações sociais em sentido mais amplo, levando a questões como sexualidade e infância (no texto de Silvia Maria Fávero Arend e Juliana Bender Ribeiro), divórcio (no texto de Marlene de Fáveri) ou ensino da História (no texto de Cristiani Bereta da Silva). Por isso, aliás, o subtítulo remete a “representações sociais e cultura política”. Com isso, abre-se uma janela para discutir como a mídia contribui para a cristalização de valores e de compreensões do mundo, que é o que fundamenta sua influência social ― e política ― para muito além da intervenção imediata em conflitos específicos.
 
O volume organizado por Reinaldo Lindolfo Lohn é, assim, uma contribuição significativa aos estudos sobre a relação entre a mídia, especificamente as revistas de informação, e a política, no seu aspecto de disputa pela construção de representações do mundo social, no Brasil do início do século XX até hoje. Mais ainda, é um convite para a continuidade das pesquisas na área, revelando um universo de questões que permanecem à espera da investigação histórica e sociológica.
 
 
* Professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê), e pesquisador do CNPq. É Doutor em Ciências Sociais (Unicamp). Coordena o Grupo de Trabalho “Democracia e desigualdades”, da ANPOCS. Foi vice-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (gestão 2013‑2015). Edita, com Flávia Biroli, a Revista Brasileira de Ciência Política. Publicou, entre outros, os livros Mito e discurso politico (Editora Unicamp, 2000), Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014) e O nascimento da política moderna: de Maquiavel a Hobbes (Editora UnB, 2015).

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